Por PhD Haroldo Santana

Quando analisamos as lesões no esporte, é muito comum tentar simplificar o problema: olhar para estatísticas, identificar as lesões mais frequentes e, a partir disso, tomar decisões. E de fato, a epidemiologia tem um papel fundamental, porque ela nos mostra dados consistentes em cada modalidade.

Mas existe um ponto importante aqui.

Esses dados não explicam a lesão por si só.

Eles mostram tendências… não causas e é aqui que muitos profissionais se perdem no processo!

Quando integramos essa reflexão, fica claro que a lesão não é resultado de um único fator isolado, mas da interação entre múltiplos elementos como: carga, capacidade tecidual, histórico, contexto, comportamento motor e ambiente. Sei você nos acompanha, até aqui não há novidades.

Logo, a epidemiologia não é o fim da análise.

Ela é o ponto de partida dentro de uma estrada longa.

E quando olhamos por esse prisma, os dados começam a fazer ainda sentido.

Vamos fazer uma análise rápida por modalidade?

No tênis, especialmente em contexto de alto rendimento como torneios de Grand Slam, as lesões concentram-se predominantemente no membro inferior, com destaque para a região de coxa, complexo quadril-pelve e tornozelo, além de acometimento relevante da coluna vertebral. Do ponto de vista tecidual, há predominância de lesões musculares, seguidas por lesões tendíneas e articulares, refletindo a alta exigência de aceleração, desaceleração e mudanças de direção ao longo dos ralis.

No beach tennis, observa-se um comportamento diferente, com predominância de lesões por sobrecarga em membro superior, especialmente em ombro e cotovelo. Isso está diretamente relacionado à repetição de gestos overhead e ao volume de prática, sendo que fatores como tempo de exposição e histórico prévio de lesão aumentam significativamente o risco.

No futebol de campo, as lesões ocorrem majoritariamente em membro inferior, com destaque para lesões músculo-tendíneas, principalmente em posterior de coxa e adutores, além de tornozelo e joelho. A incidência é significativamente maior em jogos do que em treinos, o que reforça o papel da intensidade e da imprevisibilidade do ambiente competitivo.

No basquete, também há predomínio de lesões em membro inferior, especialmente entorses de tornozelo e lesões de joelho, associadas a saltos, aterrissagens e mudanças rápidas de direção, coerente com a natureza intermitente e explosiva da modalidade.

No voleibol, as lesões mais frequentes envolvem tornozelo, joelho e extremidades superiores distais. As entorses de tornozelo estão fortemente associadas ao bloqueio e à aterrissagem, enquanto as lesões de joelho estão relacionadas ao alto volume de saltos repetidos.

Na corrida de rua, o padrão muda completamente. As lesões são predominantemente por sobrecarga e concentram-se em membro inferior, com maior incidência em joelho, perna e tornozelo. As principais condições incluem tendinopatias e síndromes relacionadas à repetição cíclica do gesto e ao acúmulo de carga.

No ciclismo de estrada, há também predominância de lesões por sobrecarga, com maior ocorrência em joelho, coluna lombar e cervical, associadas à repetição do movimento e à manutenção prolongada de postura, além de uma proporção relevante de lesões traumáticas em contextos de queda.

Na natação, observa-se um padrão clássico de sobrecarga, com predomínio de lesões em ombro, seguido por joelho e coluna lombar, diretamente relacionadas ao alto volume de treino e à repetição contínua dos gestos técnicos.

No final, o que esses dados mostram não é apenas sobre  “onde as lesões acontecem”, mas sim o comportamento do sistema musculoesquelético em cada modalidade

E é exatamente esse comportamento que você precisa entender.

Porque em uma análise mais profunda, a lesão atraumática  não está no músculo.

Não está no tendão.

Não está no movimento isolado.

Ela emerge de um rede de interações.

Agora deixa eu te fazer uma pergunta direta:

Quando um aluno chega com dor, processo de reabilitacao ou “prevenção de lesoes “ você está tratando o sintoma… ou está entendendo as interacoes que culminaram naquele problema, ou seja, desfecho?

Porque usar só a epidemiologia , os dados… pode te dar direção…

mas não te dá caminha para a solução.

E ignorar a complexidade  dos fatos pode até funcionar no curto prazo…

mas cobra um preço alto no médio e longo.

O profissional que evolui não é o que sabe mais exercícios. Eu já falei  isso algumas vezes .

É o que consegue conectar:

•⁠  ⁠dados

•⁠  ⁠contexto

•⁠  ⁠comportamento

•⁠  ⁠e tomada de decisão

Se você ainda está escolhendo exercício antes de entender o problema…

você não está fazendo reabilitação.

Você está improvisando!